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Balé Clássico e o seu cérebro | Neurociência + Dança

neurociência e dança
Foto: Rita Viana (Pé: Maercio Maia)

Quais escolhas fazemos antes de executar uma Pirouette en dehors ou um Pas assemblé no âmbito de nossa cognição? O quão consciente isto é e de que forma a experiência prévia interfere nesse processo? Foram essas perguntas que o estudo “The cognitive structures of movements in classical dance” da Revista Psicologia do Esporte e Exercício (Elsevier) tentou responder. Esse é mais um capítulo para enterdermos melhor a neurociência da dança.

Prepare-se para fazer a sua própria análise de suas escolhas no final do texto.

5, 6, 7, 8…

Não podemos ainda quantificar se todas as escolhas são feitas nesse intervalo de tempo em que costumamos nos preparar para a execução de uma variação em aula. Aqui elas servem apenas para transportar nosso imaginário para a sala de dança, pois, lá no sistema nervoso a coisa é BEM mais rápida. Um potencial de ação que viaja trazendo informações de propriocepção, por exemplo, pode viajar na velocidade de 120 metros por segundo. Nessa velocidade você iria da Capital de São Paulo até o Guarujá em 12,08 minutos.

Vamos deixando alguns conceitos delineados e entrando no estudo.

Primeiro, uma correção importante: apesar de comumente chamarmos toda a massa que está dentro do crânio de cérebro, somente a região do telencéfalo e do diencéfalo englobam o que se denomina por cérebro. Quando pensamos no todo o correto é nomearmos por encéfalo e, por nesse estudo estarmos lidando com o movimento, sabemos que boa parte do encéfalo está em jogo aqui. A figura abaixo exibe bem essas separação.

Neuroanatomia

 

Os resultados mostram a seguir que em, alguns casos, nossa forma de organizar os movimentos mentalmente imprime sua execução funcional ou não.

 

O fato de você “quicar” na pirueta pode ser mais uma questão de imaginação e de procedimento do que força na meia ponta.

 

Alguns princípios e teorias que deram o escopo a esse estudo, alguns deles você pode conferir em posts aqui do site. O princípio ideomotor (James, 1980/1981; Prinz, 2002) e a teoria da codificação de eventos (Hommer, Müsseler, Aschersleben, & Prinz, 2001) trouxeram grande parte da relação que conhecemos hoje entre percepção e ação. Podemos visitá-las no futuro, mas por enquanto nos ocupemos em acreditar que o movimento executado no espaço global tem um correlato importante no movimento executado no espaço do imaginário.

 

O que pode diferenciar um bailarino amador de um profissional?

 

Bom, podemos responder essa pergunta de diversas formas, mas partindo do contexto da neurociência e pelo que propõe o estudo, essas diferenças são observadas na forma em que a representação mental do movimento é construída na cognição, isto é, a qualidade dessas representações. Não parece ser que os fragmentos isolados dos movimentos ou somente sua forma importe muito aqui. Nesse sentido, alguns estudos já apresentaram que nossa observação e aprendizado de movimentos complexos, como a dança, dependem de nossa experiência motora anterior e não só na observação presente de uma ação, dando um papel importante à memória do movimento que guardamos.

 

A memória de trabalho e a memória de longo prazo.

 

É preciso ainda frisar que o que traremos aqui são definições gerais desses sistemas de memória, não indo a fundo nas peculiaridades e complexidades de cada uma delas.

A memória de curto prazo possui uma relação com o armazenamento temporário de informações, que não são essenciais para o futuro ou podem ser acessados através dos sentidos, por exemplo, guardar o número de um telefone observado em uma placa até registrá-lo na memória do celular.

Já a memória de longo prazo exibe informações que são relevantes para serem lembradas após aquele instante, sejam marcas emotivas ou ainda o próprio aprendizado de um passo de balé, sim isso também é uma memória.

De volta ao estudo.

Uma das contribuições que o estudo traz é que ele incorpora a relevância da memória de longo prazo nos estudos que observam performance motora de alta complexidade, como o caso do balé.

 

Os conceitos básicos de ação (do inglês, BACs):

 

Em poucas palavras são blocos de ação que organizam um padrão de movimento, é uma sequência ordenada de etapas. Imagine por exemplo o passé retiré, um possível BAC seria:

1. sentir o pé no chão, 2. coupé, 3. retiré, 4. coupé, 5. sentir o pé no chão.

Esse blocos podem ser ordenados de forma hierárquica e agrupados com verbos-chave que indicam uma execução funcional do movimento. O estudo utilizou essa organização em blocos dos passos para a estruturação do método de observação. Além disso, um método chamado Estrutura de Análise Dimensional Motora (do inglês, SDA-M) foi utilizado para medir a representação motora de forma psicométrica. Também não entraremos a fundo nesses métodos, caso surja alguma dúvida, deixe nos comentários abaixo. De qualquer forma, o uso dos métodos e abordagens buscaram uma forma de quantificar a análise psicomotora (extrapolando, neuromotora) para a avaliação das diferenças entre bailarinos experientes e amadores na execução dos passos pirouette en dehors e pas assemblé.

 

Vamos ao método.

 

A equipe separou os voluntários em dois grupos como foi descrito anteriormente. O critério utilizado foi a que os bailarinos experientes tivessem atividade profissional com forte conhecimento em técnica clássica, principalmente. Um terceiro grupo ainda foi utilizado como controle, estudantes universitários do curso de esportes sem conhecimento em técnica clássica.

Para cada passo foram estabelecidos seus blocos, as figuras abaixo exemplificam essa fragmentação.

 

 

Organização Pirouette en dehors

 

Em linhas gerais, o método de avaliação pelos blocos estabeleceu uma categorização de cada um dos elementos dos blocos de forma hierárquica e em grupos de associação, por exemplo, para a pirueta, realizar o degagé à la second + abrir o braço direito e a perna direita formaram um grupo de associação. Além disso, modelos matemáticos de interação de elementos e variância de informações foram aplicados para verificar os dados entre os grupos e em cada grupo. Esse processo de categorização foi possível graças as respostas que cada bailarino respondeu após os exercícios sobre os fragmentos dos BACs, ou seja, sua aplicação funcional. Eles foram organizados da forma que mais fazia sentido para cada um executar o movimento da melhor forma.

 

Organização Pas Assemblé

 

O que o estudo encontrou?

 

Em ambos movimentos, o grupo de bailarinos experientes exibiu um agrupamento dos BACs de uma forma mais funcional, isso quer dizer que a seleção hierárquica e suas associações correspondiam a uma organização biomecânica mais eficiente e, portanto, mais sujeita a sucessos na execução. Os resultados não defendem que um bailarino ou outro executou o movimento melhor que o outro.

Ok, o que fazemos com isso?

Os resultados refletem escolhas alocadas no âmbito da memória de longo prazo de cada participante no estudo. Essas escolhas respondem a como cada indivíduo do grupo estabelece mentalmente, isto é, no âmbito de sua cognição, a organização do passo. Essa organização diz ainda sobre possíveis formas de aprendizado e, ainda, sobre como alguns elementos são incorporados em um subgrupo da memória de longo prazo, a memória implícita (um grupo de memórias ligadas, por exemplo, ao aprendizado motor).

Algumas vezes para responder a ordem dos BACs, os bailarinos tiveram que mimetizar (no vocabulário da dança, “marcar”) o passo. Isso  foi relevante pelo fato de alguns bailarinos experientes não darem como importante pensar no fragmento [eixo], por exemplo.

Na fala de alguns bailarinos, a seguinte frase foi recorrente:

 

“Nós fazemos isso o tempo todo, não precisamos mais pensar pra fazer”.

 

Outra frase importante de ser mencionada foi a seguinte:

 

“A pirouette eu preciso pensar para fazer, o pas assemblé, não”.

 

Isso pode estar envolvido no fato do pas assemblé estar geralmente em sequências rápidas e relacionados entre passos de ligação que são altamente recrutados na técnica, como o glissade e o pas de bourrée.

 

Entao, amarramos o estudo agora.

 

Uma crítica ao estudo fica por conta de que a equipe não levou em conta o perfil de formação de cada bailarino, sua escola de formação. Para algumas escolas existe uma diferença na maneira como se estrutura a ordem de cada passo com performances funcionais.

Temos em vista que  a organização mental do movimento se apresenta mais uma vez como essencial para a performance. Aqui, podemos observar em um contexto estritamente técnico, restrito. Mas as discussões acerca de criatividade e aprendizado eficiente também são atravessadas pelo mesmo tema.

Deveríamos então rever a forma como mimetizamos (“marcamos”) os passos quando os professores apresentam uma variação, por exemplo. Ainda, seria prudente rever a forma como guardamos a imagem de nós mesmos e dos movimentos como algo não sai como o esperado, esse exercício poderia resolver uma pirouette que sempre “quica” no final do giro.

Agora, por fim, e você? Como faria a seleção de seus BACs e a associação entre eles? Utilize as figuras para montar sua ordem funcional e, se possível, poste aqui nos comentários ou dívida com sua turma ou amigos.

No mais, use a imaginação pra dançar.

#deixamover

 

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1. O termo imaginário, a rigor, não é utilizado no estudo. O uso da palavra aqui tem o objetivo de aproximar os termos científicos do público geral.

 

Referências:

Bläsing, B., Tenenbaum, G., & Schack, T. (2009). The cognitive structure of movements in classical dance. Psychology of Sport and Exercise, 10(3), 350–360. doi:10.1016/j.psychsport.2008.10.001

 

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(Ficou alguma dúvida no texto? Utilize a caixa de comentários abaixo ou escreva para contato@deixamover.com.br. Leia outros posts do site)

 

Sobre o autor

Maercio Maia

 

Bailarino e Educador do Movimento. Bacharel em Ciência & Tecnologia e graduando em Neurociência, ambos pela Universidade Federal do ABC.

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