Dança e empatia | Faz diferença fazer balé?

Tempo de leitura estimado | 7 min.

 

A presença da dança na vida das pessoas se dá de diferentes formas. Alguém pode dançar para se exercitar, para cuidar de aspectos emocionais ou como profissão. Em cada uma dessas formas em determinado momento a experiência da dança irá passar pela percepção ou expressão de emoções, sejam na clínica entre o terapeuta e seu paciente ou no palco para centenas de pessoas. Esse jogo em que a emoção se apresenta pode ainda se dar de forma interpessoal, por exemplo, quando se experimenta a apreciação de uma cena ou exercício. Bom, mas afinal, faz diferença fazer balé quando lemos as emoções dos outros? Ou melhor, podemos ser mais empáticos ao outro quando se tem no currículo a experiência da dança clássica?

Para responder essas e outras perguntas, uma equipe de pesquisadores europeus realizaram um experimento que originou o artigo “Dance expertise modulates behavioural and psychophysiological responses to affective body movement” publicado em 2016 no Journal of experimental psychology human perception and performance.

A pergunta inicial era colher resultados que pudessem mostrar que a experiência em dança aumentaria a sensibilidade para emoções estabelecidas em movimentos do balé clássico. Um questionamento tratado por uma das áreas da neurociência ligada diretamente a nossa cognição.

Neurociência Cognitiva

Esse ramo da ciência se entrelaça nos campos da psicologia e da neurociência. Em poucas palavras se ocupa em investigar os correlatos neurais de comportamentos observados subjacentes à cognição. Interessada diretamente em como o conceito de mente estabelece raízes biológicas na manifestação do comportamento de indivíduos.

O campo da Neurociência Cognitiva tem um grande leque de trabalhos envolvendo as artes, especialmente estudos que relacionam a música e o sistema nervoso. Contribuindo para abordagens clínicas de disfunções cognitivas e condições específicas como pessoas com ouvido absoluto.

O estudo

Esse não é o primeiro estudo sobre a dança pela Neurociência Cognitiva, alguns outros já se ocuparam em investigar sensibilidade e percepção em bailarinos com resultados que apontam que a experiência motora incide de forma importante na forma como se relacionamos com o mundo exterior, propondo até mesmo a existência de um homúnculo das emoções, uma representação mapeada de nossas emoções.

No entanto, até este estudo, poucos se atentaram a investigar a relação entre dança e empatia.

Para responder a pergunta que descrevemos no início desse texto a equipe selecionou dois grupos: o primeiro com formação e experiência em balé clássico e, o segundo, universitários sem formação ou qualquer ligação com a dança. Em cada um desses grupos foram apresentados uma série de estímulos em vídeo de movimentos da dança que se caracterizavam por ser movimentos com valência positiva (felizes) e negativa (tristes). Cada participante era solicitado a indicar o quão feliz ou triste era cada estímulo. Essa tarefa era executado com os participantes utilizando um aparelho que mede a condutância galvânica da pele, uma medida fisiológica amplamente utilizada para experimentos psicofísicos.

 

Figura original do artigo

Balé e inteligência emocional

A inteligência emocional tem sido descrita pela psicologia como a capacidade de acessar e descrever os próprios sentimentos e os dos outros. Diretamente ligada ao que conhecemos por empatia, ou nossa permeabilidade ao que o outro sente, impactando a nós mesmos de diferentes maneiras. Alguns estudos prévios a este propõem que bailarinos teriam inteligência emocional superior as demais pessoas, sem experiência em dança. Essa acurácia sentimental estaria ligada ao treino em dança em que ler e expressar emoções características faz parte da rotina na dança.

As emoções e as reações fisiológicas

Em 1894, o cientista James-Lange propõe a relação entre as emoções e a atividade fisiológica do corpo humano: aumento dos batimentos cardíacos, da sudorese e pressão arterial, por exemplo. As teorias de James sofreram críticas ao longo dos anos, mas ainda encontram fundamentos para que seja continuamente utilizada em estudos que se interessam pela relação entre emoções e respostas fisiológicas.

Sobre este tema, cientistas observam que bailarinos apresentam uma resposta fisiológica superior quando postos de frente a situações que envolvem emoções, propondo que o processamento dessas situações envolve uma certa mímica corporal, ou uma corporificação das emoções. Aumentada em bailarinos.

Os achados deste estudo

Os resultados apresentaram uma maior resposta fisiológica em bailarinos do que no grupo controle. Além disso, o grupo com formação em dança foi mais assertivo em diferenciar movimentos tristes ou felizes. Essa observação corrobora para a hipótese inicial em que a subjetivação das experiências emocionais e sua corporificação contribui para a leitura das emoções dos outros.

Sentir e Perceber

Embora ambos os termos se relacionem de forma muito conjugada, sua separação didática nos ajuda a entender como cada etapa do processo ocorre no sistema nervoso. Em poucas palavras, a sensação seria a etapa mais física, basal da informação, uma resposta ligada aos sentidos do corpo. Já a percepção, um processo em mais alto nível, um processamento superior que combina os sentidos em algo mais conceitual.

O que nos chama a atenção no estudo é que os resultados apresentam que o grupo de bailarinos apresentou tanto uma maior resposta a nível sensitivo, quanto uma maior capacidade de processar essas informações na observação dos movimentos.

Resta ainda sabermos onde reside a emoção no movimento observado, se é que isso ainda será possível. No mais, a experiência motora contribui mais uma vez para uma apreciação do movimento que passa pelas emoções sentidas e observadas. O bailarino mais uma vez é mais do que seus movimentos.

#deixamover

 

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Referências:

Christensen, Julia & Gomila, Antoni & Gaigg, Sebastian & Sivarajah, Nithura & Calvo-Merino, Beatriz. (2016). Dance Expertise Modulates Behavioral and Psychophysiological Responses to Affective Body Movement. Journal of experimental psychology. Human perception and performance. 42. 10.1037/xhp0000176.

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