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Forsythe e Neurociência | Sobre aquilo que chamamos de conexão

Foto: Paul Arno

Retome na lembrança alguma vez em que assistiu um dueto e você sentiu uma conexão profunda entre os artistas. Alguma vez você já se perguntou quais fatores estavam em jogo para que a sensação de unidade entre eles permanecesse viva sob seus olhos? Espero que não, pois talvez aqui você pudesse perder um pouco da máxima em ser espectador: deixar ser levado por aquilo que não entendemos bem como acontece, mas que simplesmente nos transportam para lugares recheados de sensação, emoção e sentimento. Leremos aqui um dos encontros em que Forsythe e a Neurociência realizaram até hoje.

Nesse texto iremos analisar a pesquisa da parceria de um grupo alemão de psicologia e ciência do esporte, outro que pesquisa a interação entre cognição e tecnologia, além da própria Forsythe Company. O trabalho se intitula Doing Duo – a case study of entrainment in William Forsythe’s choreography “Duo”.

Prepare seu épaulement, seu quadril arrebitado e vamos lá!

 

Forsythe e seu envolvimento com a tecnologia e neurociência

 

O encontro da obra do coreógrafo estadunidense William Forsythe com os estudos em neurociência não se limita ao artigo que trataremos nesse texto, uma busca rápida de estudos que apresentem essa conexão retorna alguns estudos em que a obra do coreógrafo sob a perspectiva do funcionamento do sistema nervoso ocorreram. Um dos trabalhos podem ser conhecidos de forma interativa, é o caso do site Synchronous Objects que traz uma das obras de W. Forsythe como disparador de uma análise computacional complexa dos movimentos presentes na obra.

Foto: Divulgação

No artigo que iremos observar aqui, o grupo se interessou em estudar o que é intitulado como entrainment, um termo amplamente estudado na biologia, física, linguística, com referências na música, mas com pouca presença da dança enquanto objeto de estudo para o conceito. O desejo aqui foi de incluir uma perspectiva de estudo de entrainment no âmbito da dança para que se pudesse observar uma prática de alta complexidade cognitiva e com uma variabilidade alta de elementos.

Para começar, vamos dar uma olhada na definição do termo clássico para a biologia, ela nos dará uma boa introdução.

A cronobiologia define o termo como a sincronização de eventos ou ritmos fisiológicos com modificações ou oscilações no ambiente. Um bom exemplo dessa sincronização é a do próprio ritmo circadiano em mamíferos (incluindo nós) com a periodização claro/escuro. Essa sincronização tem um correspondente neural definido, o núcleo supraquiasmático do hipotálamo. Para quem tiver mais interesse sobre o tema, os estudos recentes em neuroetologia trazem observações instigantes.

 

Localização do NSQ do hipotálamo

 

Agora olhemos mais próximo sobre o que o termo diz no contexto do estudo

 

A definição de Philip-Silver e Keller (2012) descrevem o entrainment humano como “uma coordenação espaço temporal entre dois ou mais indivíduos, geralmente em resposta a um ritmo global”. Esse foi o ponto de partida para observar o trabalho coreográfico, mas aos poucos o grupo foi delineando mais precisamente o termo para que o contexto da dança contemporânea fosse contemplado. Outra base do estudo é a proposição de que a sincronização de movimentos entre humanos se dá por uma sincronização e expectativa temporal baseadas em ressonâncias neurais (Large. 2000, 2010). Isso, de forma resumida, diz que a forma como lidamos como a nossa expectativa das pausas e ações em relação ao tempo se organiza de maneira síncrona com padrões rítmicos externos, no caso da dança, o parceiro de cena. Esse trabalho foi realizado com músicos e usado, de forma extrapolada, no contexto da dança contemporânea.

Notem que não estamos nos referindo a sincronização de ondas cerebrais! Nem entraremos nesse mérito por aqui e se mantenham curiosos quando lerem algo do tipo, uma série de equívocos aparecem continuamente.

 

Existiram outras referências sobre o termo além desta?

 

Acontece que esse não foi o primeiro trabalho a trazer a dança como forma de estudo de entrainment, um trabalho anterior com dança flamenca e músicos observou o termo, além de outros que ajudaram a estabelecer uma afirmação de que o entrainment observado na dança é um fenômeno tanto ecológico, quanto corporificado (1), baseados no controle sensório motor e na percepção de ações em forma de loops (Leman, 2012). À definição de Leman, serão incluídos pelo grupo de estudos os sistemas visual e auditivo, posteriormente.

Antes de entramos de fato na coreografia estudada, olhemos como a linguística aborda o termo.

Estudos em crianças apresentam mecanismos de diálogo e percepção de pausas em conversação que remetem ao que é observado em adultos, isso nos diz que parece existir um mecanismo inato para essa equalização do diálogo (Levinson e Holler, 2014). Essa perspectiva nos ajuda a ampliar  o entendimento do termo entrainment como uma espécie de coordenação de ritmos entre indivíduos, algo essencial para o diálogo síncrono e assíncrono. Para o contexto da dança, o grupo se utilizou dessa abordagem da linguística para entender o termo como sendo uma forma de pacto firmado entre indivíduos para a realização de uma ação motora que apresenta alta conectividade efetiva e relacional, isto é, se observa um mecanismo de pergunta e resposta, além de uma modificação dinâmica do corpo/movimento do outro quando o primeiro se desloca, com todo esse processo amplamente regado pela modulação do sistema sensório motor, visual e auditivo.

 

Vamos mais fundo

 

É de conhecimento a íntima relação entre o trabalho de W. Forsythe e Rudolf Laban, com isso o estudo se apoia no reconhecimento do movimento proposto por Laban como uma interação dinâmica de motivações internas e externas, misturando ações voluntárias e involuntárias (Hodgson, 2001). Notem que nessa observação sobre a interação, a via é sempre de mão dupla, em que o artista do movimento, isto é, seus estímulos internos, e o ambiente, interagem em fluxo contínuo e não hierárquico.

Quais foram as perguntas do estudo?

 

  1. Como o entrainment aparece?
  2. Que fatores determinam seu aparecimento e o influenciam?
  3. Como ele é criado ou interpretado pelos bailarinos?

 

Foto: Dominik Mentzos

O contexto de estudo é uma obra de 1996 intitulada “Duo”, criada originalmente para o balé de Frankfurt. Em suma, a dança traz o palco vazio, com uma música de fundo branda e sem pulso evidente em toda sua extensão, em que os bailarinos estabelecem um diálogo de movimento através da percepção de pausas e pistas visuais e auditivas, como o uso da exalação do ar durante a respiração. O efeito final é uma peça que apresenta alto grau de sincronia e dinâmicas de pergunta e resposta sem que haja o contato visual direto. O grupo de trabalho se debruçou sobre gravações da obra para responder as perguntas iniciais, além de notações do próprio W. Forsythe da estrutura coreográfica. Além dos vídeos, uma série de entrevistas foram realizadas com o elenco para que pudessem avaliar a percepção de entrainment, além de outras possíveis percepções.

 

Agora, os achados da pesquisa

 

A equipe traz uma presente equalização e sincronização tanto em termos de ação motora, isto é, sob a perspectiva das pistas visuais, quanto em termos de sensibilidade auditiva das pistas da respiração, é o que eles chamam de pistas multimodais. Essa equalização e sincronização apresenta uma espécie de colaboração em tempo real entre os artistas exibindo um tipo de elasticidade temporal, isto é, o interesse aqui não é manter-se em consonância com o beat da música, mas compreender esse tempo musical de forma mais complexa e relacional.

Nesse ponto, os pesquisadores salientam que o termo entrainment diz muito mais do que apenas uma sincronização entre indivíduos, mas propõe que o termo se aproxima mais de um complexo diálogo intencional com o objetivo de estabelecer um diálogo entre si.

 

A importância dos ensaios

 

Uma observação relevante de ser destacada foi a que no contexto estudado, os ensaios se apresentaram essenciais para a efetivação do entrainment. Nesse sentido, a equipe de ensaio retornou que no processo de aprendizagem da obra, a experiência e tradução subjetiva de cada intérprete foi essencial para vivenciar esse complexo efeito de sincronia. Aprender as frases de movimento foi apenas a fase inicial do processo, o diálogo final era definido, preservando a estrutura proposta por W. Forsythe, por cada intérprete. Com isso se observou diferenças temporais, motoras e espaciais em elencos distintos. É o que o grupo intitula como pactos conceituais sobre a obra, um termo extraído da linguística.

O fato da simples cópia de movimentos não ser suficiente para alcançar o nível de execução esperado revela que processos atencionais e sensitivos foram de elevada importância no contexto da dança. Aqui, o trabalho da Forsythe Company traz a importância do aprimoramento atencional e do uso de Imagery como chaves para o trabalho do intérprete de suas obras. Sobre esse processo de ensaio, os bailarinos relataram uma troca constante de suas experiências, tentando dividir sensações corporais que pudessem aprimorar o diálogo entre eles.

O processo para o alcance de entrainment foi aprendido através do ensaio.

Mas como toda essa observação pode ser estudada de forma científica, isto é, controlada?

O trabalho se ocupou em delinear as variáveis iniciais para que estudos posteriores pudessem se debruçar sobre o tema. Além disso, a caracterização multidisciplinar do estudo foi registrada para que métodos subsequentes a esse encontrassem uma base metodológica inicial. As notações escritas pelo coreógrafo foram amplamente estudadas. Os vídeos foram analisados sob perspectivas de variações no tempo de execução, resposta, pausa, além das avaliações quantitativas vindas do elenco.

 

E quais foram os resultados encontrados?

 

O grupo termina o artigo trazendo hipóteses a serem testadas no futuro, elas se organizam em linhas gerais da seguinte maneira:

 

  • os ensaios parecem agir de alguma forma a estruturar um pulso de movimento entre os intérpretes, isso é corroborado pelo fato de existirem variações no tempo de execução da obra com elencos e em datas diferentes;
  • Parece existir uma relação hierárquica e polirrítmica entre os parâmetros de movimento e som enquanto se observaram ações complementares entre os bailarinos;
  • Essa mesma relação hierárquica e polirrítmica indica estar mais presente enquanto os intérpretes atuam de forma assíncrona, do que quando agem em sincronia.
  • A percepção de entrainment relatada pelo elenco parece depender não só da sincronia motora entre eles, mas de como eles dialogam com as velocidades de execução do movimento.
  • A equipe sustenta que a aceleração da ação motora apresenta maior entrainment, enquanto o inverso também é verdadeiro.
  • Tudo indica que existe uma assinatura dos intérpretes na obra e que a execução estruturada pelo coreógrafo não é um elemento causal para o entrainment.

Os resultados também dependeram da conceitualização das pistas coreográficas, cada uma sendo um ponto de interação computacional (“nó”) caracterizado por três fatores: o intervalo de execução, a hierarquia presente e a modalidade sensitiva.

 

Encerrando então essa conversa sobre conexão…

 

O artigo conclui delineando de forma muito robusta o termo entrainment para a dança contemporânea e abre caminho para futuros trabalhos sobre o tema. De qualquer forma, a relevância da experiência e da ressignificação do ensaio para além da reprodução mimetizada do movimento se mostram mais uma vez necessárias. Aqui, estamos mais próximos do alcance no espectador daquilo que não sabemos explicar bem, mas que nos transportam para o que chamamos de conexão.

#deixamover.

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1. O termo original usado foi embodiment, ele traz em si um estudo mais profundo de como cognição, imagem e pensamento se relacionam com o corpo. Não iremos a fundo no termo, para mais informações aconselho o mergulho sobre os termos embodiment e cognition.

 

Referências:

Waterhouse, E., Watts, R., & Blassing, B. E. (2014). Doing Duo “ a case study of entrainment in William Forsythe’s choreography “Duo”. Frontiers in Human Neuroscience, 8. doi:10.3389/fnhum.2014.00812

 

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Sobre o autor

Maercio Maia

 

Bailarino e Educador do Movimento. Bacharel em Ciência & Tecnologia e graduando em Neurociência, ambos pela Universidade Federal do ABC.

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