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Neuroestética e Dança

A neuroestética é um ramo emergente da neurociência cognitiva que aborda as bases neurobiológicas das experiências estéticas. Alguns a consideram uma versão da estética empírica, um campo que emergiu da psicologia experimental no século XIX. No entanto, essa definição pode ser simplista e prepotente, refletindo uma tendência de adicionar o prefixo “neuro” a diversos campos.

No encontro com a dança, a neuroestética concentra-se nos processos neuronais e cognitivos durante uma experiência relacionada à dança, seja como espectador ou como artista. Ainda buscamos entender temas como: de que maneira a dança evoca emoções na plateia e em quem dança, como ocorre o reconhecimento e a simulação desses movimentos, e qual o papel da expertise na observação da ação. Contudo, os interesses não terminam aí.

Movimento, ritmo, deslocamentos no espaço, sincronização e coordenação são componentes essenciais da dança que artistas devem desenvolver continuamente. Focar na técnica é apenas uma das muitas camadas dessa área multifacetada e sabemos que, embora inicialmente ela ocupe a boca de cena, no final ela encontra seu lugar bem perto da rotunda.

Como linguagem, os movimentos de dança podem contar histórias reais ou imaginadas e inspirar novas narrativas no público. Essas camadas complexas formam a experiência do espectador, um aspecto da neuroestética explorado nos estudos contemporâneos.

Áreas específicas do cérebro nunca estão desligadas, especialmente ao apreciar uma performance de dança. A olhamos para a experiência do espectador quando centrada na visão observamos uma atividade aumentada no córtex occipitotemporal, responsável pelo reconhecimento visual e percepção de partes do corpo humano. Mesmo assim, sabemos o papel de áreas de integração sensorial e emocional quando sentamos na plateia1. As descobertas até agora indicam um papel dos neurônios-espelho na apreciação da dança, destacam a diferença entre a experiência do artista e do espectador amador, e estabelecem uma base para futuras pesquisas em dança2.

 

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Figura original de Li & Zhang (2020)

Os mecanismos por trás da neuroestética

Os neurônios-espelho foram descobertos há mais de vinte anos em macacos-prego3. Essas células disparam tanto quando o macaco realiza uma ação quanto quando observa a mesma ação. Esses neurônios estão principalmente nos córtices frontal e parietal, envolvidos no processamento emocional e visual, respectivamente.

Experimentos sugerem que os sistemas de neurônios-espelho se ativam tanto ao assistir quanto ao executar movimentos de dança4.

 

Sob os olhos de quem dança

Alguns experimentos nos ajudam a contar essa história.

Contando com dez dançarinos amadores de tango, o Dr. Brown e colegas do University of Texas Health Science Center em San Antonio escanearam os cérebros desses artistas enquanto dançavam uma sequência repetida de passos de tango. As ativações ocorreram nos córtices motor primário e sensorial, córtex pré-motor, córtex suplementar e áreas somatotópicas das pernas5.

Outro estudo realizado pela Drª Calvo-Merino focou nas habilidades motoras, examinando como os cérebros dos dançarinos são estimulados ao assistir uma performance6. Usando fMRI, os cientistas capturaram imagens dos cérebros dos dançarinos em dois momentos: ao assistir uma sequência de dança aprendida e outra desconhecida. Os resultados mostraram que as habilidades motoras do observador influenciam a resposta cerebral. Dançarinos de balé tiveram maior ativação nas áreas motoras ao assistir seu repertório pessoal comparado com um trecho de capoeira. O grupo controle, sem experiência prévia em nenhum dos estilos, teve níveis semelhantes de estimulação cerebral para ambos os trechos, destacando como o pré-treinamento afeta a ativação cerebral. Esses e outros estudos sugerem que uma ação como a dança pode ser descrita como uma função incorporada, em que a presenta da expertise se desobra em uma ressonância do que é observado, ao passo que a ausência reflete apenas a percepção do sinal sensorial em termos de sua compreensão.

 

E quem está sentado na plateia?

Um estudo realizado em 20127 com 104 não-dançarinos e 35 dançarinos profissionais avaliou as opiniões estéticas sobre dez clipes de diferentes formas de dança. As opiniões dos dançarinos incluíram dinamismo, excepcionalidade, avaliação afetiva e excitação, enquanto os não-dançarinos focaram nas três primeiras dimensões, indicando uma diferença nas experiências estéticas. A “excitação” é descrita com adjetivos como “fácil, erótico, excitante e livre,” sentimentos mais pessoais e carregados pela perspectiva do dançarino.

Um estudo anterior8 realizado em 2008 pela Drª Calvo-Merino teve espectadores assistindo a vídeos de movimentos de balé clássico, centralizados nos critérios de velocidade, parte do corpo envolvida, localização no espaço e direção do movimento. Os resultados mostraram que o córtex pré-motor direito é ativado ao observar movimentos preferidos pelos espectadores. Em 2011, pesquisas mostraram uma correlação entre a preferência por um movimento e sua dificuldade de execução

 

Olhando para o futuro

Pesquisas anteriores9 descrevem sobre como a dança evoca respostas emocionais mostram que quanto mais se gosta de um movimento, maior é a ativação nos córtices parietal e occipitotemporal. Com a neuroestética da dança, pesquisas adicionais podem criar terapias de movimento mais eficazes, por exemplo. Terapeutas poderiam incorporar esses movimentos em intervenções para maximizar a estimulação cerebral e promover o tratamento de transtornos da mente (e do corpo).

No entanto, é importante considerar a dança por si só e ouvindo quem a faz. Como arte, a dança utiliza movimentos motores complexos, processamento espacial dinâmico e treinamento mental contínuo. Identificar movimentos que causam maior resposta neural pode comprometer os valores artísticos da dança? Performances futuras podem ser ajustadas ao que o público deseja sentir?

Como artista e neurocientista não tenho as respostas para as perguntas acima, mesmo assim considero uma urgência: é hora do laboratório se aproximar do palco e vice-versa.

Obrigado pelo seu tempo e movimento.

#deixamover

 

Referências:

  1. Chatterjee, A. & Vartanian, O. Neuroaesthetics. Trends Cogn. Sci. 18, 370–375 (2014).
  2. Jola, C., Ehrenberg, S. & Reynolds, D. The experience of watching dance: phenomenological–neuroscience duets. Phenomenol. Cognitive Sci. 11, 17–37 (2012).
  3. Gallese, V., Fadiga, L., Fogassi, L. & Rizzolatti, G. Action recognition in the premotor cortex. Brain 119 ( Pt 2), 593–609 (1996).
  4. Poikonen, H., Toiviainen, P. & Tervaniemi, M. Dance on cortex: enhanced theta synchrony in experts when watching a dance piece. Eur. J. Neurosci. 47, 433–445 (2018).
  5. Brown, S., Martinez, M. J. & Parsons, L. M. The neural basis of human dance. Cereb. Cortex 16, 1157–1167 (2006).
  6. Calvo-Merino, B., Glaser, D. E., Grèzes, J., Passingham, R. E. & Haggard, P. Action observation and acquired motor skills: an FMRI study with expert dancers. Cereb. Cortex 15, 1243–1249 (2005).
  7. Vukadinovic, M. & Markovic, S. Aesthetic experience of dance performances. Psihologija 45, 23–41 (2012).
  8. Calvo-Merino, B., Jola, C., Glaser, D. E. & Haggard, P. Towards a sensorimotor aesthetics of performing art. Conscious. Cogn. 17, 911–922 (2008).
  9. Cross, E. S., Kirsch, L., Ticini, L. F. & Schütz-Bosbach, S. The impact of aesthetic evaluation and physical ability on dance perception. Front. Hum. Neurosci. 5, 102 (2011).

Sobre o autor

Maercio Maia

 

Neurocientista, Bailarino e Educador do Movimento. Criador do deixamover, a única plataforma brasileira a entrelaçar saberes da educação somática, dança e neurociência.

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