O desespero pelo en dehors como causa do “joanete”

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A técnica clássica possui uma série de desafios que fogem daquilo que a evolução nos preparou em termos de movimento. De fato, não evoluímos biomecanicamente para nos movermos com os pés para fora, em rotação externa (do francês, en dehors). De todo o modo, a rotação externa está para a dança clássica como a linguagem de programação está para a informática, presente e essencial. O fato é que nem sempre a rotação natural de cada corpo acompanha o que se vê nos pôsteres de academias de dança e o desespero pelo en dehors pode trazer sérias complicações, como o “joanete”.

É o que apresenta o estudo “Correlation between degree of hallux valgus and kinematics in classical ballet: A pilot study” (Correlação entre o grau do “joanete” e a cinemática no balé clássico: Um estudo piloto), desenvolvido por uma associação japonesa de educação no balé.

O trabalho apresenta uma correlação importante entre a presença e o grau do joanete e uma alteração no alinhamento funcional do quadril, essencial para o movimento funcional no balé clássico.

O termo científico para o joanete é nomeado por hálux valgo e denotaremos por HV aqui nesse texto, ou ainda com o nome popular, “joanete”.

O HV é caracterizado por um desalinhamento dos ossos meta e intermetatarsais, conforme a figura abaixo. Ele é fruto de pré disposições genéticas, mas muitas vezes associado a padrões de pisada e erros na técnica do balé, que será tratado aqui.

 

Ângulo observado no estudo, visto sob Raios-X

 

Um dado importante é que este não é o primeiro trabalho a tratar a presença do HV em bailarinos, mas traz uma importante reflexão a respeito do grau de desalinhamento desses ossos, propondo que quanto maior o grau do HV, maior o impacto na cinemática de todo o corpo durante a execução da técnica clássica.

O desespero pelo en dehors como causa do joanete

Um dos maiores erros que causam lesões na técnica clássica é o trabalho mal orientado do en dehors, que faz com que o aprendiz na técnica exacerbe a rotação externa. Muitas vezes, essa rotação é descontada em articulações abaixo do quadril por acreditar que se alcançaria uma maior rotação levando pés, tíbia + fíbula e joelhos para fora. Um grande erro.

Pelos pés suportarem o peso do corpo, esse excesso da rotação externa sendo descontado na altura do tornozelo, faz com que todo o corpo responda em seu alinhamento, levando a alterações importantes no centro de massa do corpo humano, o quadril.

Neste estudo, foram recrutadas bailarinas experientes de um centro de estudos em dança no japão. O grupo foi submetido a execução do demi-plié em sexta posição e, em primeira posição. As imagens da execução foram gravadas e analisadas através de marcações em pontos específicos, característicos no estudo da biomecânica. A figura abaixo demonstra a tarefa requerida no estudo.

 

Figura original do estudo

O estudo encontrou uma correlação entre o grau do HV e a retroversão do quadril (colocar o bumbum pra dentro).

Essa organização do quadril está associada a uma série de complicações funcionais como um encurtamento da cadeia posterior, retificação da coluna lombar e o próprio “joanete”.

A correlação apresentada neste trabalho traz, mais uma vez, a importância do respeito aos limites do corpo e ao trabalho orientado no estudo do balé. Assim, alterações mínimas no desenvolvimento da técnica comprometem uma performance inteira, mas, sobretudo, a saúde e o bem estar de pessoas.

Nosso corpo se conecta de diferentes formas e, algumas delas, curiosas e pouco investigadas. Essas múltiplas maneiras de conexão presentes no corpo faz com que regiões distantes impactem umas às outras, neste caso, os pés e o quadril.

Somos um mundo inteiro no corpo e isso não deve ser esquecido no balé.

Quando tratamos de performance e aumento de amplitudes existem meios de se alcançá-los sem que haja o comprometimento dos alinhamentos funcionais. Esteja atento aos professores e ao seu progresso na técnica atrelado a saúde e bem estar do corpo e movimento. Essa é uma boa medida para se observar.

Bem estar e técnica precisam caminhar juntas.

Cuide de seus apoios, cuide de seus pés e dos espaços presentes nessa estrutura e no equilíbrio entre as rotações que nascem dali para o céu, para o palco.

Até o próximo post!

#deixamover

 

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Referências:

Seki H, Miura A, Sato N, Yuda J, Shimauchi T (2020) Correlation between degree of hallux valgus and kinematics in classical ballet: A pilot    study. PLoS ONE 15(4): e0231015. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0231015

 

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