Balé, Música e Neurociência | Como a música afeta nossa percepção na dança?

Tempo de leitura estimado | 9 min

 

Ao assistir um espetáculo de dança você já se perguntou a respeito de como as escolhas musicais dos coreógrafos e coreógrafas afetam nossa percepção das emoções? Será possível assistir A Morte do Cisne (Mikhail Fokine, 1905) ao som de Anitta e construir as mesmas emoções? Como a música afeta nossa percepção na dança e será possível usar a ciência ao nosso favor em um processo artístico?

Então, pre-para e vamos ao estudo.

O trabalho que discute essa relação foi realizado em 2014 e publicado na revista Frontiers in Human Neuroscience, intitulado Enhancing emotional experiences to dance through music: the role of valence and arousal in the cross-modal bias, foi fruto de pesquisadores da Espanha e Reino Unido. O interesse aqui foi observar se existiria alguma evidência da interferência da música na percepção das emoções evocadas por movimentos do balé clássico, os resultados são interessantes.

O efeito de viés

Já é sabido a essa altura do campeonato da modulação que a música insere em nossa percepção de estímulos visuais, esse efeito é chamado de cross-modal bias. Em poucas palavras, um estímulo vindo de um input sensorial distinto pode afetar a percepção de outro estímulo sensorial, aqui, audição interferindo na percepção visual.

A novidade deste estudo foi analisar de forma focal o efeito da música na percepção de movimentos do balé clássico.

Antes de entrarmos no estudo, vamos a alguns conceitos importantes.

Quando observamos estudos dessa natureza estamos interessados no efeito de viés (do inglês, bias) que estímulos podem evocar. Um viés é qualquer estímulo que possa induzir uma resposta esperada à exposição de outro estímulo.

Imagine, por exemplo, você em uma sala com bolas vermelhas, azuis e brancas e te perguntam qual a primeira marca de refrigerantes que te vem à cabeça, bom, é bem provável que a maior parte das pessoas relembrem da concorrente da Coca-Cola sob essa exposição.

Os estudos em marketing e neuro-economia estão bem interessados em estudar vieses para aumentar os lucros de empresas ou para conscientizar consumidores sobre seu comportamento financeiro.

Valência vs. Nível de excitação

Duas variáveis foram importantes para esse estudo: a valência do estímulo e o nível de excitação evocado pelo estímulo (valence vs. arousal).

Em poucas palavras, a variável valência percorre uma linha que vai do negativo ao positivo, já o nível de excitabilidade incide diretamente em nossa percepção de uma valência. Imagine por exemplo uma valência negativa com baixa excitabilidade, temos aqui a tristeza. Imagine agora uma valência negativa com alta excitabilidade, observaríamos algo próximo de um estresse, uma tensão exacerbada. Neste texto em alguns casos abdicaremos do rigor da definição dessas variáveis para que as conclusões fiquem mais acessíveis, mesmo assim, foi resguardado o cuidado da preservação da interpretação original dos resultados.

A figura abaixo traz uma variabilidade interessante da combinação desses dois eixos.

Electro-Physiological Data Fusion for Stress Detection – Scientific Figure on ResearchGate.

Conhecer essas variáveis são importantes pois foram elas que o estudo se ocupou em manipular para que as hipóteses fossem respondidas.

Quais foram elas?

A primeira hipótese é que a música agiria como um tipo de viés para a percepção dos movimentos do balé. A segunda hipótese, é que a música afetaria significativamente a valência e excitabilidade do movimento observado, podendo deixar movimentos tristes mais tristes e movimentos alegres, mais alegres.

Vamos ao estudo

Estudantes de psicologia de uma universidade, todos sem conhecimento específico de dança clássica foram submetidos ao experimento que consistia na observação de movimentos de dança sob três condições, ouvindo uma música alegre, ouvindo uma música triste e, no silêncio. Os movimentos foram apresentados de forma aleatória e separados em conjuntos de movimentos mais tristes e outros mais alegres. Isso foi possível graças a um trabalho realizado anteriormente que caracterizou 203 movimentos do balé a partir de suas valências e excitabilidades percebidas.

Os participantes do estudo tinham que ao final de cada exposição mensurar no computador a percepção do estímulo, além de terem monitorado a variação de sua condutância da pele, uma medida diretamente ligada à nossa percepção das emoções. Veja a figura original do procedimento:

Figura original do artigo

Então, será que a música afeta nossa percepção na dança?

Analisemos primeiro a variável valência.

A partir de uma análise estatística foi observado um efeito de viés da música sobre a percepção da valência dos movimentos do balé clássico. De forma mais direta, ouvir uma música mais triste fez com que a percepção da valência do movimento fosse mais negativa. Além disso, ouvir músicas mais alegres, fez com que movimentos caracterizados por serem mais tristes fossem percebidos como menos tristes. Contudo, o estímulo musical feliz não fez com que a percepção de movimentos alegres fosse percebida de forma mais positiva.

Agora, em relação ao nível de excitabilidade observado.

Quando observadas as respostas da condutância da pele, estímulos congruentes, ou seja, músicas alegres e movimentos enérgicos/ músicas tristes e movimentos letárgicos, obtiveram uma maior resposta. A resposta do corpo na pele foi mais relevante nessa condição do que quando os estímulos eram incongruentes (músicas tristes e movimentos alegres, e vice-versa).

Quais então foram as conclusões do estudo?

O estudo conclui que sim, existem evidências ao afirmar que a música afeta nossa percepção na dança, apesar de existirem lacunas a serem preenchidas. Uma dessas é a observação de que estímulos musicais alegres não deixaram movimentos mais alegres, o que não foi observado no cenário inverso.

Uma discussão interessante que o trabalho propõe é como os resultados podem afetar nosso olhar para a percepção do público em um trabalho coreografado, indo ao encontro de uma espécie de engajamento afetivo intencionado pela obra.

Notem que a perspectiva do público embora possa se somar a uma média esperada, possui uma variância de percepções que dão cor ao encontro entre obra e plateia e, que as propostas apresentadas pela pesquisa apresentam apenas uma interação curiosa para se mergulhar e não uma tentativa de nivelarmos a experiência perceptiva de um público.

Uma estética cerebral?

O que salta desse trabalho também é o campo de uma estética cerebral, um campo de pesquisa interessado em se observar os correlatos neurais de uma experiência estética. Mas esse tema ficará para um próximo post.

Com isso, a interação entre música e dança colhe novas cartas para que essa relação possa ser compreendida um pouco mais a fundo, descortinando elementos que dão suporte para entendermos como aquilo que acontece sem sabermos o porquê, começa a colher respostas promissoras para sua compreensão.

Mas, antes de terminar não é demais deixar marcado.

A experiência estética em dança se dá por variáveis múltiplas que no contexto científico ainda são difíceis de serem controladas: memórias emotivas, experiências de aprendizado motor, sensação e percepção, atenção…

Esse caldeirão é demasiado profundo e o seu não entendimento ainda guarda o mistério de estarmos interessados em arte.

#deixamover

 

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Referências:

Christensen, J. F., Gaigg, S. B., Gomila, A., Oke, P., & Calvo-Merino, B. (2014). Enhancing emotional experiences to dance through music: the role of valence and arousal in the cross-modal bias. Frontiers in Human Neuroscience, 8. doi:10.3389/fnhum.2014.00757

 

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