Aprendizado na dança: erros e acertos propostos pela neurociência

Tempo de leitura estimado | 7 min.

 

Recentemente escrevi aqui no site sobre a organização mental de bailarinos profissionais e amadores para a realização de um movimento (do balé). Nesse texto vimos que existe uma sequência funcional que se difere entre os grupos, essa sequência é baseada em estágios, ou posturas de movimento que se desencadeiam em uma maneira esperada, o próprio movimento da pirueta, por exemplo.

Com isso posto, pensar em posturas (ou fotos) dos movimentos nos ajudaria a aprender de maneira mais funcional? Ou será que o movimento deveria ser apresentado por completo? Em termos de decisão didática ou até mesmo do aprendizado coreográfico, seria melhor ensinar o todo antes das partes ou as partes antes do todo?

Uma experiência pelo movimento

O trabalho a ser percorrido aqui foi publicado na Revista Springer em 2014. Intitulado “Recognition of dance-like actions: Memory for static posture or dynamic movement? a pesquisa traz uma importante reflexão sobre aspectos ligados a como construímos nossa percepção do movimento, além da relação dessa percepção com a memória e com a aprendizagem.

A partir da diferenciação da percepção de posturas e movimentos completos do balé, o estudo eleva uma indicação de um treino conectado com o todo em detrimento das partes, alocando o processo didático no ensino do balé em uma experiência pelo movimento e menos pela sequência de estágios de cada passo.

É importante diferenciar dois termos que se confundem no senso comum: sensação e percepção.

De uma maneira muito geral, a sensação se refere aos estímulos ambientais ou internos que nos causam uma certa resposta sensorial: um som, uma luz ou um toque, por exemplo.

Já a percepção, a um estágio superior da relação com esses estímulos. Ela nos traz uma certa categorização, ou ainda um juízo das sensações, estando muito conectada às imagens que criamos em torno delas.

Cognição Humana e os estudos perceptuais

Uma das áreas da neurociência, a da cognição humana, estuda paulatinamente nossas relações entre sensação e percepção. Embora vejamos uma diferenciação didática, na prática, elas ocorrem em harmonia e unidas.

Os estudos sobre percepção demonstraram até aqui que a maneira como percebemos o corpo em movimento difere da forma que percebemos posturas estáticas do corpo. Agora nos resta saber se existe alguma diferença entre esses cenários no que diz respeito ao processo de retenção da informação, ou seja, na forma como a memória de trabalho lida com esse cenário.

Para saber um pouco mais sobre memória de trabalho, a Nature traz um repositório aqui.

A hipótese inicial do estudo é que haveria uma diferença na forma como retemos informações ligadas ao movimento dinâmico e ao movimento estático, as posturas. 

Vamos ao estudo

O trabalho utilizou um grupo de estudantes sem formação profissional em dança como grupo experimental em uma tarefa de recordação visual utilizando movimentos do balé clássico. A tarefa experimental consistia na exposição do participante ao estímulo que poderia ser: estático (postura) ou um movimento completo do passo (dinâmico).

Ao final de uma série de estímulos o participante era convidado a responder se já havia visto aquela imagem ou se a imagem seria nova, não vista antes.

Em uma segunda tarefa foi inserida uma etapa spam. Aqui, era apresentado um desafio de recordação visual de estímulos geométricos entre as exposições dos movimentos ou posturas do balé.

Ambas etapas sao descritas nas figuras abaixo:

 

Figura original do artigo

 

Figura original do artigo

O que o estudo encontrou?

Os resultados apresentaram uma maior pontuação nos testes de recordacao quando o movimento era apresentado por completo e não só sua parte.

Uma série de desdobramentos se revelam com o trabalho, entre eles está a constatação que para nós da dança é antiga, mas que na ciência encontra substratos a partir desse trabalho:

Movimentos da dança são mais do que posturas, principalmente quando os conectamos à sua retenção, ou seja, a memória

Memória e aprendizagem se relacionam mutuamente e sua reflexão para a aprendizagem na dança se mostra essencial para professores e, ainda, para coreógrafos.

Uma das proposições do próprio grupo é que haveria uma maior retenção do conteúdo motor exposto e de sua qualidade de movimento e estilo se fosse apresentado aos bailarinos o movimento como um todo, ao invés de uma série de recortes que, em grande parte, são resolvidos pelos próprios intérpretes.

Assim, não parece adiantar muito que seja apresentado cada frame  de um passo se você deseja que o seu intérprete alcance um desejo estético ou de estilo. Preferencialmente, apresente o todo, o movimento com suas características e etapas completas.

Não excluir o valor do processo

Aqui, não se exclui a importância da correção processual, do investimento em cada fase de um passo. Mas parece razoável pensar que despender muito tempo ensinando ponta-meia-flex levaria a um movimento funcional do battement tendue. Ao invés disso, o treino fragmentado deve ocupar um lugar de pesquisa e de refinamento em um segundo estágio, quando o aprendizado já se instaurou a partir do todo, quando o que se aprendeu está implícito no indivíduo.

Para se alcançar esse estado em que o movimento acontece sem que gastemos muita energia para pensar nele, precisamos agir de forma global.

A tal consciência corporal, não parece estar presa na análise de fragmentos, mas no corpo do todo.

 

#deixamover

 

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Referências:

Vicary, S.A., Robbins, R.A., Calvo-Merino, B. et al. Recognition of dance-like actions: Memory for static posture or dynamic movement?. Mem Cogn 42, 755–767 (2014). https://doi.org/10.3758/s13421-014-0395-0

 

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