Interocepção em bailarinos – Sentir o corpo por dentro

Tempo de leitura estimado | 12 min

 

É possível sentir e perceber de forma precisa estados do corpo e do movimento que se localizam mais internamente, da pele para dentro? Essa percepção é mais acurada em pessoas com experiência em dança? Vejamos um pouco sobre interocepção e dança, seus achados importantes.

Essas perguntas guiarão nossa perspectiva sobre o trabalho “I can feel my heartbeat: Dancers have increased interoceptive accuracy” publicado em 2017 no periódico Wiley Psychophysiology. A pesquisa estabelece uma importante observação sobre aquilo que ouvimos em nossas vidas de movimento repetidas vezes, mas que não sabemos muito bem como quantificar ou explicar. Uma das pesquisadoras do estudo, a Drª Beatriz Calvo-Merino possui uma ampla publicação sobre dança e neurociência, veja mais aqui.

Interocepção e nossa capacidade de sentir o corpo por dentro

A interocepção pode ser caracterizada pela capacidade de sentirmos e percebermos tanto movimentos internos como o batimento cardíaco, quanto informações sobre temperatura corporal e até inferências sobre a dosagem de glicose sanguínea e pressão arterial. A complexidade em torno da interocepção pode levar o indivíduo a reconhecer estados de saúde e doença do corpo, a partir das informações que percebe de si mesmo.

Nesse estudo, o grupo se interessou por mensurar a acurácia interoceptiva individual (IAcc) em um grupo de bailarinos em comparação a um grupo com pessoas sem experiência em dança e, ainda, lançar um panorama das correlações entre experiência contemplativa em arte e a IAcc, entre outras palavras, observar arte com frequência faz diferença para perceber a si mesmo, no âmbito das sensações internas?

A interocepção tem sido tratada como chave para a percepção consciente do corpo e movimento. Além disso, essa percepção se conecta com uma espécie de sensibilidade emocional no indivíduo, isto é, nossa capacidade em reconhecer em nós mesmos nossos estados emocionais. Ademais, propostas de pesquisa trazem uma perspectiva de interação entre a interocepção e a empatia.

Mas como esse processo de precisão da interocepção se conecta com a dança?

Primeiro vamos ao estudo.

Neste trabalho, bailarinos profissionais foram instruídos a contarem seus batimentos cardíacos em certos intervalos de tempo, sem que pudessem acompanhar seu pulso com o tato. A precisão foi determinada pela comparação das respostas de cada artista com um relatório de monitoramento por eletrocardiograma. Além disso, o grupo experimental foi submetido a uma série de questionários a respeito de sua experiência em artes (como público e profissional) e, ainda, avaliações que mensuraram a sensibilidade por emoções, empatia e alexitimia. O mesmo foi feito com o grupo controle, pessoas sem experiência em dança.

Os resultados foram analisados usando abordagens estatísticas, observando tanto a acurácia das respostas, quanto medidas de correlação entre variáveis, por exemplo, acurácia da resposta versus experiência em apreciação artística.

O que o estudo encontrou então?

O grupo de bailarinos obteve uma pontuação superior ao grupo controle, exibindo uma maior acurácia interoceptiva. Além disso, bailarinos mais experientes obtiveram resultados ainda melhores.

Agora, algumas questões relevantes que foram levantadas

Existe uma sugestão na literatura que a própria atividade física, qualquer delas, levaria a uma maior percepção dos batimentos cardíacos. Este foi o primeiro estudo realizado com bailarinos e observou-se uma menor taxa de batimento cardíaco em repouso. Essa taxa menor já foi apresentada em outros estudos como uma correlação negativa com a acurácia em IAcc. Em outras palavras, baixas taxas de batimentos se relacionaram com altas pontuações em IAcc.

Contudo, a análise estatística correlacionando essa taxa de repouso com a pontuação em IAcc se manteve superior no grupo-dança. O que corroborou para a conclusão final do estudo.

Uma outra possível explicação para o achado é que bailarinos teriam uma maior percepção de seus batimentos pela própria prática diária, eles então sairiam na frente do grupo controle por conterem essa experiência prévia.

O trabalho conclui então que sim, os bailarinos demonstraram interocepção superior comparada ao grupo controle. Um resultado curioso é que as análises demonstraram uma correlação entre a experiência contemplativa em arte e a pontuação em IAcc, o que nos leva a inferir que até mesmo a recorrente exposição à arte nos retornaria uma maior percepção de si.

Uma das vias apresentadas para o entendimento dos resultados é que a prática em dança não só favorece a ampliação dos processos atencionais e perceptivos, como também a manifestação desses processos de forma expressiva. Contudo, não existe ainda uma saída para a questão abaixo:

A experiência em dança aumentaria nossa percepção ou uma percepção inata responderia melhor ao treino de dança, levando o indivíduo ao profissionalismo?

Uma saída para essa pergunta seria a realização de estudos longitudinais com um número elevado de participantes, contudo, até aqui, isso não foi realizado.

O estudo estabelece uma estreita relação entre a prática e contemplação artística e nossa capacidade de percebermos a nós mesmos e, ainda, o outro. Restam dúvidas que possam ser resolvidas de forma mais detalhada e que sejam respondidas com uma quantidade maior de indivíduos.

Até lá, que sigamos então valorizando os processos em dança que levam o artista e espectador a interagirem com suas próprias informações sensoriais e incrementando ferramentas que levem a percepção de si e do outro a um novo patamar. Lembrando que o processo de interocepção – sentir o corpo por dentro, tratado nesse estudo, trouxe um recorte de um mundo de possibilidades subjetivas e objetivas em torno do auto conhecimento e da ampliação da relação com o movimento.

#deixamover

 

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Referências:

Christensen, J. F., Gaigg, S. B., & Calvo-Merino, B. (2017). I can feel my heartbeat: Dancers have increased interoceptive accuracy. Psychophysiology, 55(4), e13008. doi:10.1111/psyp.13008

 

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