Sua experiência motora define a forma como você vê o mundo | Neurônios-espelho

Tempo de leitura estimado | 6 min.

 

Quando estou em pausa entre uma variação e outra em uma aula de dança e observo alguém em movimento, estou ou não estou em aprendizado?

Existe uma boa frase de Rubem Alves para o tema deste post:

“Quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente.”

É a partir daqui que iniciamos a discussão sobre o que se entende hoje pelo sistema-espelho, um complexo sistema neuronal que traz a importância da observação para entendermos de que forma aprendemos o que aprendemos e com isso nos tornemos diferentes em cada universo e linguagem.

Sua experiência motora define a forma como você vê o mundo

Um estudo de 2005 intitulado “Action Observation and Acquired Motor Skills: An fMRI Study with Expert Dancers” traz à luz da dança aquilo que foi proposto pelo neurofisiologista italiano Giacomo Rizzolatti como neurônios-espelho, uma rede celular do córtex cerebral que é ativada ao observarmos um movimento e que, nesse estudo, se apresenta ser modulada pela experiência motora prévia.

“Quando nós observamos alguém fazendo uma ação, nossos cérebros simulam aquela ação?”

Essa é a pergunta inicial do artigo que inovou ao tratar do tema do espelhamento neuronal em uma situação mais complexa: a observação de movimentos de dança e capoeira.

Vamos retroceder um pouco no tempo

No final do século XX, ao realizar experimentos com macacos, o neurofisiologista Giacomo Rizzolatti observava a ativação de uma população de neurônios no córtex cerebral do animal enquanto ele realizava tarefas simples, como pegar um um cacho de frutas e levar a boca. Durante a realização de seus experimentos o cientista percebeu que essa mesma população de neurônios entrava em ativação quando um de seus assistentes entrou na sala saboreando um sorvete e era observado pelo macaco.

Daí surge o que se entende hoje por uma rede celular que é capaz de simular ações ocorridas no espaço independentemente destas serem, de fato, executadas pelo indivíduo.

O que foi feito até então em uma escala de complexidade pequena foi então levado pelo grupo deste trabalho a um patamar de estudo que leva em consideração uma ação motora complexa: a dança. Isso surge da hipótese que o sistema espelho em humanos deve ser sensível ao grau da experiência do observador com a ação motora em questão.

O estudo

Um grupo de bailarinos profissionais do Royal Ballet de Londres, outro grupo de capoeiristas profissionais e ainda um grupo de pessoas sem experiência prévia em dança e capoeira foram convidados a participar do estudo.

A tarefa era observar movimentos de dança e capoeira enquanto eram escaneados por uma máquina de ressonância magnética funcional. Durante a observação cada participante era convidado a avaliar o quão cansativo era pra ele o movimento que estava sendo apresentado, isto é, o nível de esforço necessário para realizar o movimento.

Os resultados apresentam que as respostas corticais dos participantes era influenciadas por seu aprendizado motor prévio, já que as regiões do cérebro que eram ativadas respondiam de maneira mais evidente quando bailarinos observaram bailarinos e capoeiristas observaram capoeiristas. Resultados corroborados pela observação de que a ativação no grupo controle era inferior a ambos os grupos experimentais.

As áreas do cérebro

As áreas em questão são áreas classicamente relatadas por Rizzolatti em seus estudos com o acréscimo de algumas outras que não discutiremos nesse texto. Em especial registro aqui a importância de áreas do cérebro associadas ao movimento e a recordação de memórias semânticas, uma classificação de memória de longo prazo diretamente ligada a nossa capacidade de organizar as informações conceitualmente, com significado.

Áreas observadas. Figura original do artigo.

Isso quer dizer que ao observarmos um movimento nosso cérebro parece simular o movimento observado. Quase como se, na linguagem da dança, ele “marcasse” o passo mentalmente. Mais importante ainda é que os resultados apresentam um comportamento cerebral que lida com o movimento aprendido, não apenas sua correspondência muscular, isso é mais um elemento para que tratemos o movimento como algo mais complexo a uma série músculo-esquelética.

Um movimento é observado sempre com significado, nunca somente de forma biomecânica

Durante minha formação em dança eu ouvi algumas vezes em minhas aulas:

Um bailarino experiente sabe marcar um passo tão bem quanto o executa

Essa representação mental de um passo faz parte de um aprendizado que leva em consideração diferentes fatores, mas que cada vez mais traz a importância de um processo de construção de uma inteligência motora que passa pela execução e, ainda pela representação funcional de um gesto.

Pois bem, se você acompanha o site deve saber que a imaginação e as representações mentais sempre aparecem por aqui nos textos. Esses trabalhos vão ao encontro de uma única porta: a que a inteligência motora não está só no movimento que se vê em ação, mas no movimento que nasce e se desenvolve no imaginário de cada bailarino.

#deixamover

 

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Referências:

Calvo-Merino, B., Glaser, D. E., Grèzes, J., Passingham, R. E., & Haggard, P. (2004). Action Observation and Acquired Motor Skills: An fMRI Study with Expert Dancers. Cerebral Cortex, 15(8), 1243–1249. doi:10.1093/cercor/bhi007

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